segunda-feira, 18 de maio de 2009

Fragmentos



Sou um pouco do que a genética predeterminou, um tanto do que fizeram de mim e um muito do que minhas escolhas me possibilitaram.

Meu caráter e toda minha base, graças a Deus, devo a meus pais (e a Ele, claro!). Mas, certamente, parte do que eu sou devo ao quintal de minha casa de infância. Foi lá que aprendi a sonhar e imaginar que o mundo poderia ser muito, muito maior. Era uma casa modesta, humilde, simples. Éramos (somos!) gente simples.

Nunca passamos fome, mas muitas vezes o alimento da manhã era farinha de milho com café (às vezes tinha um pouco de leite...) e o almoço era arroz ou angu com feijão e um peixe seco salgado (manjubinha) comprado bem baratinho no armazém. Quando dava, tínhamos galinhas, aí comíamos carne! Mas não era sempre. As galinhas eram mais para comermos ovos, ou vendermos, dependia da necessidade! O chuchu que crescia ao lado da casa e umas verduras q minha mãe plantava complementavam a refeição. Não morávamos na roça, era na cidade mesmo, pequena cidade do interior, mas não tínhamos TV em cores, nem telefone e quando queríamos gelo pedíamos na casa da vizinha: não tínhamos geladeira! Mas também não tínhamos dívidas e só comprávamos o que podíamos pagar. O que era muito pouco. E éramos felizes com esse pouco. Meus pais trabalhavam duro, sem parar. Minhas duas irmãs mais velhas cuidavam da casa e também de mim e de minha irmã caçula.

E havia o quintal... Enorme, enorme quintal! Lá, de cima das árvores, eu via os quintais dos vizinhos e sonhava com o resto do mundo.

Aprender a sonhar trouxe algumas decepções, mas muitas compensações.

Algumas vezes, sonhar é o que me mantém...

As tais árvores onde eu subia eram um pé de goiaba branca e um pé de goiaba vermelha. E havia o abacateiro, duas laranjeiras, um limoeiro, um mamoeiro, bananeiras, duas mangueiras (as mangas não eram muito boas e eu atravessava a cerca para pegar as do vizinho, que eram bem mais gostosas!). E havia os animais! Lá embaixo, mais longe da casa, o chiqueiro sempre tinha dois porcos. Um deles seria morto no final de ano... era quando a família podia comer carne também! Meus pais mandavam assar o pernil na padaria e o restante da carne dividiam para os vizinhos. Era costume, todo mundo na rua fazia isso, dividia a carne dos porcos com os vizinhos.

A morte do porco sempre me dava uma certa tristeza. Eu tinha dó do porco e ficava meio triste na passagem de ano. Apesar de bem pequena, eu era a veterinária da casa: era eu quem cuidava dos animais doentes! Além do porco, havia pássaros (eu abria as gaiolas e soltava os pássaros sem meu pai saber!), galinhas, cachorros (muitos, mas só um de cada vez... a maioria se chamava “Bob”), gatos (quase sempre uma gatinha chamada “Mimi”), uma coruja (chamada “Corujinha”) e uma cabritinha (chamada “Bitinha”... é, éramos supercriativos para nomear animais... rsrs).

No quintal éramos piratas, veterinárias, donas de casa, mães e filhas, professoras, artistas de circo (eu sempre era o palhaço!!), astronautas... éramos o que escolhíamos ser... e enquanto ríamos tanto, eu não podia sequer imaginar que toda uma vida estava sendo moldada e construída ali... em nossos sonhos e brincadeiras inocentes no quintal...

Hélia

3 comentários:

Henrique disse...

Texto magnifico. Vc tem o dom da palavra escrita, realmente. Me fez viajar e imaginar vc, criança, sonhando nas árvores do quintal. Muito belo. Bjs. Henrique

Mari disse...

Isso mesmo, Tia Hélinha! Dou completamente razão para Henrique! Fiquei imaginando você no quintal, com seu jeitinho meigo, e sonhador de ser... Perfeito! Beijo grande! Amo muitão você!

Paulinha disse...

LIndo mamãe !!
Vc e d++++++