
Minha mãe sempre diz que "pra morrer, basta estar vivo". E que "a única certeza na vida é a morte".
Ela tem uma certa razão, claro. Tem uma razão autenticada pela experiência adquirida ao longo dos anos e por sua sabedoria serena.
É certo que podemos ter dúvidas acerca de quase tudo na vida: se iremos encontrar nossas almas gêmeas, se teremos bons empregos, se teremos filhos e netos... Mas temos a certeza de que um dia partiremos desse mundo. Isso é fato. Todo mundo morre, pelo menos na sua forma física e pelo menos por enquanto (afinal, a ciência tem avançado tanto!).
Mas não concordo que a morte é a única certeza na vida. Talvez cada pessoa tenha sua lista de certezas. Eu acredito que existe outra grande certeza na vida. É a saudade.
Invariavelmente, estamos sempre sentindo saudade. De alguém, de alguma coisa, de algum lugar...
Não conheço ninguém, em sã consciência, que não sinta essa coisa danada, que nos aperta o peito, às vezes a garganta e que dói uma dor tão diferente e inexplicável... Na verdade, acredito que sente saudade até quem não tem a consciência tão sã (esses, aliás, talvez até mais!) e até os inconscientes!
Segundo o dicionário Michaellis, saudade é “1 - Recordação nostálgica e suave de pessoas ou coisas distantes, ou de coisas passadas. 2 - Nostalgia.”
O dicionário apenas dá um norte. Não seria possível, realmente, resumir em uma definição rápida o significado da saudade. Certas coisas se entendem melhor sentindo...
Claro que tenho saudade de pessoas queridas! Da minha mãe, meu pai, minhas irmãs, sobrinhos, cunhados... primos, tios... amigos... todos que vivem meio distante de mim... E sempre vou sentir, pois é impossível morar todo mundo junto e em qualquer lugar que eu viva, sempre sentirei saudade de alguém...
Mas não é só isso... Essas saudades sempre existirão, mas por algum momento dá pra apaziguar, através de um reencontro. Mas eu tenho saudade do que se foi também!
Eu tenho saudade do afagar dos meus cabelos, feito pelo meu pai ao penteá-los...
Como sempre, eu vivia descabelada e só meu pai dava conta de pentear aqueles cabelos longos e finos que desciam pelos meus ombros...Tenho saudade do gosto dos docinhos que minha mãe comprava em Belo Horizonte e levava pra gente...
Ela guardava os docinhos em uma portinha do seu guarda-roupa, que era uma espécie de cofre, trancado à chave (que só ela tinha). Comíamos os docinhos pequeninos aos poucos e, talvez por isso, eles tinham um sabor incomparável...Incomparável também era o cheiro da comida da minha tia e madrinha Glorinha... Era maravilhoso e único (como ela, aliás, única também, com sua risada e seu coração enormes)! Sinto muita saudade desse cheiro...
Uma vez, caminhando na hora do almoço, passei em frente a uma casa de onde saía um cheiro muito parecido! Fiquei tentada a entrar e conhecer a cozinheira, mas não tive coragem...Tenho profunda saudade do mundo que eu via de cima da goiabeira da minha casa de infância...
Misturavam-se ali o mundo real – dos quintais dos vizinhos – e o meu mundo imaginário, tão apenas meu!Tenho saudade do som das risadas que dávamos, eu, minhas irmãs, meu primo Adão, minhas coleguinhas da rua, enquanto brincávamos e corríamos, despreocupadas...
Se eu pudesse, voltaria no tempo para gravar esse som, pra ouvir e me lembrar sempre do quanto a vida pode ser tão gostosa!A saudade abrange os 5 sentidos e muito mais!
Tenho saudade do estado de graça em que fiquei ao dar meu primeiro beijo... Sensação boa!
Como diz o dicionário, são todas saudades de coisas passadas. Mas, e a saudade do futuro? Ou do imaginado? Ou do nunca vivenciado? Será que é possível?
Nunca me preocupei muito com o possível. Sei apenas do que sinto. Mesmo que muitos não compreendam (talvez nem eu!), eu sei que sinto...
Sinto saudade do amanhã. Que não virá.
Saudade do beijo que não dei, da risada que não soltei, das frases que não falei, das palavras que não escrevi. Dos planos que não concretizei, dos instantes que não compartilhei.
Saudade de tudo com que sonhei e de tudo que não vivi.
Nem dói. Mas é muito sentida. É uma saudade azul-clara como o meu mundo de cima da goiabeira, despretensiosa como minhas risadas na infância, que faz afagos no meu coração como as mãos do meu pai nos meus cabelos, com o cheiro bom da comida da minha tia e o gostinho dos doces da minha mãe. Suave e terna. Que me lembra o tempo todo que na vida temos que escolher uma estrada e renunciar a outra. E que, no meio dessa encruzilhada, esse complexo de sentimentos que traduzimos como saudade sempre estará a nossa espera.
E você? Tem saudade de que?Hélia
"O tempo não pára! Só a saudade é que faz as coisas pararem no tempo..."